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Pedro Proença
 

"Aquilo que te peço é que soltes a tua verve e produzas um ensaio que apresente radicalmente o artista Pedro Portugal: um produto do cavaquismo? um avião? um construtor civil falhado? Não! Um verdadeiro artista. Mas uma coisa séria, porque já temos idade."
Pedro Portugal

Falar do Pedro Portugal é sempre difícil. É no entanto mais fácil do que falar sobre o trabalho do mesmo. Ele escapa-se, desvia-se, parece não querer estar lá. Não se percebe se quer ser artista se quer deixar de sê-lo. Quando o conheci ia ser arquitecto. Ao fim do primeiro ano da ESBAL era esta a sua opção. Mas no ano seguinte ei-lo enveredando pelos impredictíveis caminhos das Artes Plásticas. A partir daí muitas foram as vezes em que tentou deixar de ser artista, de declinar essa pomposa responsabilidade. Parece que existia um complot para o dissuadir. Todos participavamos nele. Mas quando ele insistia que as pinturas em que estava trabalhando eram as últimas eramos cépticos. Ele não. Ele desejava que essas fossem as suas últimas pinturas. A certa altura começou a citar, num jogo amável de reconhecimentos a ver o como os outros reagiam a esse reconhecimento. Havia nessas pinturas alguma coisa de dissuasivo, elas encaixavam-se em composições complexas e amáveis, e as anedotas fortuitas pareciam querer dizer o que o resto da obra dizia. E o que dizia, de facto? Eu creio que falava, obviamente, da sua vida dissimulando-a o mais possível. Mas como em todas as pinturas inquietava para o seu autor o seu simples acontecer. Eu creio que Pedro Portugal ficava perplexo, primeiro porque essas obras surgiam como que do nada, e depois porque se vendiam. O facto delas se venderem tornava-as mais reais, isto é, traduzia-as numa possibilidade de terem consequências sobre a sua vida. Apesar disso a irrealidade mantinha-se. Mas o surpreendente é que a vida deste artista passou a ser cada vez mais centrada na Arte. Os pequenos almoços, a roupa por engomar, as consultas médicas, etc., passaram a ter uma importância mínima na sua vida comparadas com o tempo que ele dedicava à actividade artística. Todas as conversas começaram a gravitar à volta da actualidade, das estratégias, das possíveis provocações, na dissecação da obra de determinados autores.

O esforço analítico que P.P. punha nas suas obras tornou mais evidente o mecanismo plástico de determinados autores. Ao agarrar "os melhores trechos" dos "melhores artistas" e combiná-los antologicamente (e está claro, criticamente) nas suas pinturas o artista está a dizer que a eficácia plástica dessas obras predomina sobre todo e qualquer contexto ou valor intencional. Essas obras não se desfazem desses valores, nem os anulam. Isso seria ridículo e pretensioso. Mas o que elas pretendem salvar é sobretudo a eficácia das imagens. E a eficácia das imagens é uma eficácia sobre a vida.

Por isso, quando olhamos para um país que vai apodrecendo, visualmente devorado pela construção selvagem e pelos florestamentos criminosos de eucaliptos, o Pedro Portugal foi o único artista capaz de exprimir sem medo, e de forma insistente, a indignação perante tudo isso. Essa indignação talvez lhe tenha custado admiradores e reduzido o lote de clientes. Mas há na sua vida um contraponto crítico que mostra que a sua atitude não era um acto irresponsável quando leva a cabo na Quinta da Carrapata um projecto de florestação. Será mesmo necessário tentar enriquecer um país depressa e mal à custa da sua posterior desertificação?

Se o exemplo de Pedro Portugal fosse seguido, e espero que o seja, pelos muitos proprietários que têm os seus terrenos ou abandonados, ou postos a render em função do lucro fácil (que se poderá traduzir em quê? Em vivendas luxuosas? Em automóveis de marca ultrarrápidos capazes de pôr os vizinhos e amigos a salivar de inveja?), muitas catástrofes poderão ser evitadas. Ao lado desta atitude são anedóticos todos os actos de pseudo-radicalismo que atravessaram as artes contemporâneas nesta região do sudoeste da Ibéria, com mais ou menos piscadelas de olho ao poder ou ao mundo da arte internacional. Se a obra de P.P. nos poderia sugerir um niilismo que se auto celebra com um certo cinismo, com tanta porcaria por aí feita, ela acaba, pelo contrário, por nos revelar um sentido de responsabilidade invulgar, ainda que, para os cínicos, isso possa parecer "naif".

Pediu-me o artista uma biografia. Já adiantei alguns pormenores. Vamos agora a alguns factos. Pedro Portugal nasceu em Castelo Branco e passou a sua infância e adolescência no interior da Beira Baixa, região que é hoje bem sintomática de todas as transformaç›es do nosso país nos últimos anos. Ainda muito jovem participou activamente nas estruturas juvenis do PPD local, que mais tarde abandonou, não deixando nunca de se interessar pela vida política. Frequentou, antes de ingressar na Universidade, um curso de construção civil. Já na escola de Belas Artes de Lisboa foi, desde o início, um dos propulsores de um grupo de artistas que mais tarde se autodenominaria Homeostética. Com apenas 21 anos realiza a sua primeira exposição individual na galeria Módulo, Lisboa, que se traduz num amplo sucesso crítico e comercial. Apesar disso tenta, como já o disse, abandonar a carreira artística e dedicar-se a outras actividades, das quais a propagandeada sociedade de investimento SOFIA foi um dos muitos exemplos.

Poderia falar da sua vida de uma forma mais intimista, das suas recordações de infância (das quais se destaca a imagem da cauda de pavão, símbolo da abundância, e provável motor da sua paixão pelas cores e formas), das viagens que mais o marcaram, de todo o esforço de guerra para reformar a actividade artística neste país, na generosidade com que se entrega a projectos, etc. Mas fico por aqui esperando não o decepcionar, e desejando que, por fim, as suas Últimas Pinturas deixem de ser as últimas, mas sejam o prelúdio de uma actividade inesgotável, activa, responsável e indispensável para todos nós.

   
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© 1997 - Pedro Portugal