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CITAÇÕES E COMENTÁRIOS Miguel von Hafe Pérez |
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"Não mais pôr a questão: como é que a liberdade de um sujeito se pode inserir na espessura das coisas e dar-lhe sentido, como é que ela pode animar, a partir do interior, as regras de uma linguagem e tornar desse modo claros os desígnios que lhe são próprios? Colocar antes as questões seguintes: como, segundo que condições e sob que formas, algo como um sujeito pode aparecer na ordem dos discursos? Que lugar pode o sujeito ocupar em cada tipo de discurso, que funções pode exercer e obedecendo a que regras? Em suma, trata-se de retirar ao sujeito (ou ao seu substituto) o papel de fundamento originário e de o analisar como uma função variável e complexa do discurso." [A exposição/acção "Últimas Pinturas" de Pedro Portugal inscreve-se na teia de premissas teóricas e formais consolidada nesta asserção, quase tão velha como eu. A legitimidade da função autoral parece cada vez mais depender de terceiros, tornando-se assim na possibilidade da função autoral. Trata-se, no fundo, de ganhar plena consciência de que tal como na democracia política, a estética e a arte se encontram constantemente sob sufrágio. "L’art est ce qui rend la vie plus interessante que l’art." [Sem se limitar a uma convencional vida de atelier, Pedro Portugal tem vindo a procurar diversificar a sua actividade artística, executando e propondo projectos de arte pública, tal como a acção "Eucalipto - Homenagem" encomendada pela Câmara Municipal de Lisboa para as Festas da Cidade de 1991, ou ainda o "Monumento ao Túnel da Gardunha", que segundo as palavras do autor será, "idealmente, um monumento fúnebre ao sub-desenvolvimento", ou, finalmente, projectos literalmente agrícolas. É também um dos coordenadores da Associação para a Investigação Etno-Estética e do Centro Cultural de Lisboa. Estas múltiplas actividades obrigam-no a assumir a figura de um negociador compulsivo. As suas obras e intervenç›es adquirem, assim, uma espessura sociológica assinalável, algo que a presente exposição "Últimas Pinturas" igualmente concretiza, na medida em que pôe à prova o conceito de exposição tal como ele é tradicionalmente concebido, ao apresentar no seu espaço unicamente o catálogo produzido para a Internet. O confronto já não é o da obra com o espectador, mas sim deste último com a obra em potência. Com tudo isto e parafraseando o slogan, Portugal cumpre assim o seu destino, que também é o destino de muitos dos mais estimulantes artistas da contemporaneidade: tornar a sua (nossa) vida mais interessante do que a arte.] Para fazer um poema Dadaísta [Fino sarcasmo dadaísta. Embora distante da pulsão dos dadaístas, Pedro Portugal, com Fernando Brito, João Paulo Feliciano e Manuel Vieira protagonizaram uma "exposição/performance Anti-Arte de matriz dada-formal" na galeria Quadrum em 1989, sob a designação conjunta de Ases da Paleta. Tratava-se, então, de um sinal apoteótico do fulgurante sucesso do "anything goes" de origem pop e plena aceitação crítica e comercial nos anos oitenta. A aproximação ao universo dadaísta fazia-se mais pela via formal, pelo desprezo demonstrado relativamente às normas, pela crua ironia e pelo humor, do que propriamente por via de um desejo interior de ultrapassagem subversiva do "status quo", ou pela utópica procura de uma imaculada ética da criatividade que teria caracterizado os agitadores do início do século. Aceitar que a subversão se deve tornar subtil, gradual e manipulativa para se tornar eficaz é uma das grandes tarefas da criatividade contemporânea. Ou seja, reconhecer que as sociedades contemporâneas não podem ser encaradas por uma visão dicotómica da realidade, onde de um lado estão os "bons" e do outro os "maus", pressupôe uma inteligência crítica que saiba fugir ao politicamente correcto, e assumir uma capacidade interactiva e reactiva à crescente estupidificação e neo-conservadorismo de determinados segmentos da vida cultural ocidental.] "It is important to realize that a signature is a device, a proven device. [Nos dias que correm, a ligação das instituições dedicadas à arte contemporânea com os artistas tem vindo a desenvolver-se no sentido de uma relação não intermediada por agentes exteriores, dada a consolidação da prática da encomenda directa e da criação site-specific. Esta situação não deixa de representar um preocupante sinal de normalização e trivialização do gosto, já que a história recente tem vindo a demonstrar que entre instituições as preferências artísticas não diferem tanto quanto entre museólogos e críticos, dada a acção habitualmente censória dos conselhos de administração e sponsors no que respeita a artistas ou exposições incómodas. A "low-level gestalt" que Dennis Oppenheim sabiamente refere é uma arma terrível dos artistas instalados, que procuram colocar as suas obras em todos os sítios possíveis. Acresce que o reconhecimento de uma assinatura ou de um percurso artístico é um dos pressupostos de competência da actividade do historiador e do crítico de arte, pelo que em caso de falta de defesas intelectuais ou preguiça profissional este tipo de arte se revele muito mais dócil, tanto ao nível da respectiva classificação e distribuição por tendência, como ao nível do seu enquadramento teórico. "Sois, Atenienses, um povo de tansos; quando os delegados das cidades submetidas queriam enganar-vos, começavam por chamar-vos a brilhante Atenas, e vós, ao ouvirdes isso, abríeis as pernas." [Vem esta citação a propósito da inacreditável capacidade de resistência que a recepção do facto artístico tem vindo a demonstrar ao longo da chamada modernidade histórica e da contemporaneidade. Duchamp nunca terá imaginado a reverberação teórica que o seu urinol iria provocar. Manzoni fez o seu serviço para dentro de uma lata, etiquetou-a, e hoje esta é indubitavelmente uma obra de referência na historiografia de arte, cobiçada por particulares e instituições. Fala-se em arte (escreva-se, de preferência, com maiúscula) e estaremos a repetir o efeito "brilhante Atenas".] "Seja qual for a cidade onde me leve o acaso, admira-me o facto de não se desencadearem todos os dias nela levantamentos, massacres, uma matança sem nome, uma desordem de fim de mundo. Como podem, num espaço tão reduzido, coexistir tantos homens, sem se destruírem, sem se odiarem mortalmente? Para dizer a verdade, odeiam-se, mas não estão à altura do seu ódio. Esta mediocridade, esta impotência salva a sociedade, garante-lhe a duração e a estabilidade." [É verdadeiramente impressionante a acuidade destas palavras. Cada vez mais me convenço de que a tão proclamada "morte da arte" não se realiza na mesma medida em que nas cidades visitadas por Cioran os massacres não se concretizavam. A duração e a estabilidade do sistema das artes assenta igualmente na mediocridade. Pedro Portugal descobriu-o muito cedo. Por isso trabalha e baralha-a com particular agudeza ao descomprometer-se enquanto génio criativo para se assumir na qualidade de manipulador estético.] "Como sabemos há muito, a arte oferece-nos satisfações substitutivas como compensação das mais remotas renúncias culturais, as mais profundamente sentidas, e daí não ter rival para reconciliar o homem com os sacrifícios por ele feitos à civilização." [Comentário em forma de contra-citação: "The realm of art and aesthetics consists in a conventional management of illusion, in a convention which circumscribes the delirious effects of the illusion, which circumscribes illusion as the extreme phenomenon. Aesthetics restores the command of the subject over the order of the world, it is a form of sublimation of the total illusion of the world which otherwise would overwhelm us. |
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