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WWWWWWWWWWWWW Leonor Nazaré |
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Querendo ou não, mostrando ou dissimulando se o quer ou não, Pedro Portugal aponta com desdém uma arte feita de citações, de mecanização, de vulgarização serial, vivendo no entanto dessa mesma lógica constitutiva, no sentido em que organiza a sua própria arte dentro dela; mais ainda, exacerbando o processo ao ponto de deixar de ser possível saber onde começam e acabam intenções, vontade, cedência, crítica, adesão, proveito ou desistência. No limiar destes movimentos, procura um sentido para o que faz na dificuldade de gostar da própria ideia de procurar um sentido. A incomunicabilidade de todos os percursos de pesquisas individuais, principalmente de quem toma consciência da desinformação, da insensibilidade e da incultura estéticas mais generalizadas, levam a uma espécie de desistência do sentido, a um cepticismo cínico, a um tipo de indiferença anunciado na própria obra, na forma de a fazer surgir. Já recorrente no seu trabalho, a estratégia de amalgamar citações pictóricas (motivos conhecidos de outros artistas), obriga a uma pesquisa e selecção que desta vez delegou em dois alunos da escola Ar.Co, Arte e Comunicação - a seu gosto e critério inventariaram algumas, e esqueça-se a pretensa erudição artística dos observadores, porque se em obras anteriores ainda era possível identificar alguns elementos, agora nem o próprio artista saberá muito bem ou quererá esclarecê-los. Porque na realidade, a favor do artista ou contra ele, apesar do público ou por causa dele, original ou cópia, uma imagem ou outra, tanto faz. A composição das matrizes é feita por computador antes da pintura; a digitalização prévia facilita a sua manipulação, inventariação e circulação. Pintar é um capricho técnico, aliás entediante e confiável a um bom assistente; encontrar as formas também, como ficou dito. A própria decisão de citar e de reproduzir em apropriação, depois de Warhol, de Sherri Levine e ainda de todos os manifestos pós-modernos é também uma acomodação filosófica. Porque de facto, talvez se pudesse provar quase com os mesmos argumentos do discurso pós-moderno, que está tudo por inventar. Se o exemplo de Pedro Portugal fosse seguido, e espero que o seja, pelos muitos proprietários que têm os seus terrenos ou abandonados, ou postos a render em função do lucro fácil (que se poderá traduzir em quê? Em vivendas luxuosas? Em automóveis de marca ultrarrápidos capazes de pôr os vizinhos e amigos a salivar de inveja?), muitas catástrofes poderão ser evitadas. Ao lado desta atitude são anedóticos todos os actos de pseudo-radicalismo que atravessaram as artes contemporâneas nesta região do sudoeste da Ibéria, com mais ou menos piscadelas de olho ao poder ou ao mundo da arte internacional. Se a obra de P.P. nos poderia sugerir um niilismo que se auto celebra com um certo cinismo, com tanta porcaria por aí feita, ela acaba, pelo contrário, por nos revelar um sentido de responsabilidade invulgar, ainda que, para os cínicos, isso possa parecer "naif". Restam a compulsão, o descaramento e a sobrevivência. A compulsão de ser artista, nem sempre coincidente com a de fazer arte. O descaramento de atirar uma obra ao nada da significação ou à simulação desse vazio, ou à simulação da simulação. É sem esclarecer qual o primeiro espelho deformante. A sobrevivência, porque no limiar da desistência, esta não é globalmente possível. "Últimas Pinturas" por se tratar das últimas que pensa fazer, ou simplesmente por serem as últimas que fez? A ambiguidade intencional da designação tem mais uma vez a ver com um fim não assumido, porque o fim, morte definitiva ou morte passagem é, em qualquer caso, uma incógnita que dificilmente se arrisca. As obras desta "exposição" poderiam ter sido expostas na sua fisicalidade plena (telas + tinta). Em vez disso são dadas a ver em dois espaços virtuais: o primeiro é a Internet onde podem ser encontradas as matrizes das "Últimas Pinturas", uma "Shop" e um Portfolio do artista. P. P. pode chegar ao planeta inteiro e é a própria sensação de ubiquidade, outro espaço/tempo em distorção e manipulação acelerada que o recurso informático prefigura. O segundo é o écrã da sala em que o projecto e as imagens das obras são apresentados; as telas pintadas, a que as "obras" não são redutíveis, ficam guardadas no atelier à espera do efeito de catálogo por encomenda nesses dois lugares virtuais da sua pintura, ainda mais virtuais do que o são já, a outro nível, qualquer catálogo ou portfolio correntes. Por aí se chega a outra abordagem possível do trabalho de P.P., o querer rir-se do consumidor, do comércio e da avidez decorativa. A partir duma mesma matriz são realizadas várias telas e desenhos de repetição de vários tamanhos para que não haja canto de sala ou corredor em que não se adaptem. Conceitos de gestão e marketing integram aliás a explicação do "concept" da exposição. E acerca das pinturas, será de referir a sua aparência festiva, lúdica, cromática, fantasiosa? Ou de preterir esses aspectos menores? A imagem virtual resulta de assumir que a imagem real não tem em si algo de essencial, um movimento interno, uma razão de ser, uma presença; é como referir de facto a sua inexistência, o seu esvaziamento a favor duma aparência, duma projecção, de um simulacro e portanto de um desenraizamento. E se a exuberância da imagem pode ser a fachada do seu grande vazio interno, a encenação do vazio também pode apontar uma enormidade de questões numa espécie de eterno retorno da significação, ou pelo menos de uma motivação inicial que sobrevém a todas as denegações e simulacros. O facto de o artista ter entregue a si próprio a produção integral da exposição, parece emblemática desse cruzamento de uma tendência crítica em relação aos circuitos sociais (da arte e outros) que tem percorrido a sua obra, com esta discussão pseudo-naive duma só provável intenção, origem e finalidade das obras. O trabalho de P.P. é o de uma gigantesca desmontagem em dificuldades de restruturação. Por opção também pseudo-aleatória, porque uma língua ou outra tanto faz e W ou K também tanto faz poderá dizer-se para fazer em iniciais a frase do título: " When We Walk around and Watch the World We Wonder Why the World Wide Web Would be so Wonderful". |
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