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Pintura/Escultura Leonor Nazaré 1991 |
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"Evitem a compulsão e deixem que as lições dos vossos filhos tomem a forma do jogo. Isto também vos ajudará a ver quais são as suas aptidões naturais." "Não pode haver dúvidas sobre a utilidade da faculdade de visualização quando está devidamente subordinada a operações intelectuais mais elevadas. Uma imagem visual é a forma mais perfeita de representação mental onde quer que estejam em causa a forma, a posição e as relações dos objectos no espaço." Estes poderiam ser cubos encomendados por uma escola de ensino especial baseado na educação pela Arte. Imagine-se por exemplo a Arte do século vinte a ser apresentada às crianças a partir de diaporamas sobre os Artistas e da experiência perceptiva e logocosensorial de encaixar formas consagradas da sua obra em espaços recortados à imagem delas conforme se propôe nestes brinquedos e em muitos congéneres conhecidos no mercado mas limitados a formas geométricas simples. No caso dos últimos o que se pede é a mecanização do gesto, uma aprendizagem desligada de fins alheios a si própria. O mérito seria aqui aliar-lhe a interiorização de formas históricamente reenviáveis e "formalmente qualificadas". E se a duas dimensões, a percepção é um exercício com um grau de abstracção díficil para uma criança muito pequena, a três dimensões ela torna-se estimulante. Na sequência deste tipo de preocupações poder-se-ia até falar da tarefa da escola gestaltista de estabelecer relações isomórficas entre as experiências humanas individuais e a estrutura física do cortex, reflexão que não valerá a pena adiantar aqui. Apesar de me ter interdito o uso, nesta explicação introdutória, de expressões como "P.Portugal não tem intenções pedagógicas, não pretende ensinar nada, isto é irónico, a escolha de artistas é aleatória, educação artística não é isto...", imagine-se de preferência que me encomendou a mim a tarefa de projectar sobre a exposição a ideia de que ela pode ter eficácia didáctica. Nove Artistas ao alcance da mão das crianças, mas como no livro de François Lyotard explicado às crianças, constituindo uma situação pedagógica, fingida em absoluto, todo o cuidado posto em Não Haver Ironia, em Não Haver Paródia; mais propriamente simulada. O espaço da Galeria funciona como o de um Jardim Infantil onde se propôe o entretenimento e informação a um destinatário não muito claramente definido e, em todo o caso, localizável entre pessoas de camadas etárias muito variadas. Uma Galeria destina normalmente a Arte que apresenta a um Público Adulto e neste caso requer desse Público exercícios de reconhecimento de outros Artistas que poderão ser-lhe difíceis porque as formas aparecem-lhe descontextualizadas.A proposta de Pedro Portugal é a de se dirigir ao espírito lúcido da criança e das Crianças que há nos Adultos, ao suposto déficit informativo que há, de formas diferentes, nos dois, à sensibilidade do Pedagogo, do Crítico, dos Pais, do Cidadão que vai ver Exposições, e ainda à de todas as Pessoas onde isto se cruza em graus e modalidades diversas. O Pai e a M&atile;e ou o director da escola poderão comprar o brinquedo para os filhos e/ou alunos. Mas custar-lhes-á o preço de uma obra de Arte e, definir nesse momento que tipo de compra terá sido feita equivale ao confronto com uma figura do marketing pouco usual - não se sabe como responderia P. Portugal a uma proposta de comercialização do produto; pode-se dizer, por exemplo, que me proibiu de afirmar que seria de toda a utilidade fazê-lo. Alargando o sentido lúdico da iniciativa, P. Portugal inclui no catálogo o desenho planificado de um cubo que poderá ser colorido por si, como nos livros de pintar infantis. Será assim solicitado a reconstitui-lo retomando um prazer antigo e apoiado no pretexto louvável de estar a aprender História de Arte.O conhecimento a que é conduzido ou o reconhecimento a que é convidado arrastam para junto de si todo o aglomerado informativo e cultural que significam estes nomes: a Pop, a reprodução serial, a eficácia visual e publicitária com Andy Warhol, a conceptualização da arte identificada com a vida de Joseph Beuys; a Arte Povera de Jannis Kounellis, a Land Art, as espirais, a pedra e areia de Robert Smithson; a ironia dadaista de Francis Picabia; os exercícios formais e o minimalismo de Sol Lewitt, o suprematismo constructivista e a pureza radical da forma abstracta de Kasemir Malévitch; o ready-made e os pilares da Arte conceptual com Marcel Duchamp. Ao mesmo tempo fazem com que o Brinquedo seja Arte porque tem a ver com outra Arte tendo o Artista escolhido aquelas imagens porque são boas para trabalhar reconhecida e comprovadamente eficazes dentro da sua obra porque servem o propósito de contrariar a Poesia, frustrar uma reverencialidade demasiado enpenhada e aproveitar o cinismo apropriacionista implicado, o lado mais sorridente e descomprometido. |
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